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O Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) é um dos serviços mais estratégicos da Proteção Social Básica e ainda gera muitas dúvidas na execução cotidiana dos municípios. Entender seu papel, seus objetivos e sua forma de organização é fundamental para qualificar a oferta e fortalecer a proteção social nos territórios. Vamos entender melhor sobre ele?
O que é o SCFV?
O Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) é um serviço da Proteção Social Básica do SUAS que tem como objetivo criar e fortalecer espaços de convivência familiar e comunitária, prevenindo situações de vulnerabilidade e risco social.
Na prática, o SCFV organiza atividades coletivas, desenvolvidas em grupos, que estimulam a convivência, o pertencimento, a participação social e o fortalecimento de vínculos. Ele é ofertado de forma complementar ao trabalho social com famílias realizado no Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF), ampliando as possibilidades de proteção social nos territórios.
Qual é a finalidade do SCFV?
O Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos oferece à população que vivencia situações de vulnerabilidades sociais, novas oportunidades de reflexão acerca da realidade social, contribuindo, dessa forma, para o planejamento de estratégias e na construção de novos projetos de vida. Por isso, o SCFV cumpre um papel estratégico dentro da política de assistência social. Entre suas principais finalidades estão:
- Promover a convivência social e familiar, oferecendo atividades em grupo que facilitam a interação, o diálogo e a troca de experiências.
- Fortalecer vínculos comunitários, contribuindo para sentimentos de pertencimento, identidade e solidariedade.
- Prevenir situações de risco social, como isolamento, violências e exclusão, por meio de intervenções planejadas que valorizam a participação e o protagonismo dos usuários
Mais do que um conjunto de atividades, o SCFV é um espaço de convivência qualificada que contribui para a proteção social antes que situações de violação se agravem.
Quais são os eixos norteadores do SCFV?
Dentre os eixos norteadores que perpassam todos os ciclos da vida dos usuários, estão: a participação, a convivência social e o direito de ser.
A convivência social é considerada o principal eixo do SCFV, por traduzir a essência dos serviços da Proteção Social Básica e promovendo o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. As ações e atividades estimulam o convívio social e familiar, o sentimento de pertença, a formação da identidade, a construção de novos projetos de vida, etc.
Já o direito de ser, estimula o exercício da infância e da adolescência, por meio de atividades que promovem a troca de experiências, e potencializam a vivência em cada ciclo de vida.
Por fim, a participação, através da oferta de atividades do SCFV, busca estimular a participação dos usuários nos diversos espaços de controle social, e através da família, comunidade e escola, assegurando dessa forma o seu papel como sujeito de direitos e deveres.
Para quem é feito o SCFV?
O Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos é voltado a quem dele necessitar. A Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais (TNSS) cita, ainda, diversos grupos que devem ser priorizados como os indivíduos pertencentes à famílias beneficiárias de programas de transferência de renda, com deficiência, egressos de medida socioeducativa, vítimas de situações de violência e exclusão
Os grupos podem ser organizados conforme faixas etárias, da seguinte forma:
- Crianças até 6 anos
- Crianças e adolescentes de 6 a 15 anos
- Adolescentes de 15 a 17 anos
- Jovens de 18 a 29 anos
- Adultos de 30 a 59 anos
- Pessoas Idosas
É importante ressaltar que determinadas características de grupos familiares ou individuos são as que mais sofrem com as situações de vulnerabilidade e risco social, ocasionadas pelos seguintes aspectos a seguir: deficiência, raça-etnia, religião, orientação sexual, dentre outros.
Por isso, apesar da organização dos grupos, o município deverá levar em conta as demandas surgidas e as necessidades das pessoas participantes. Além disso, é de suma importância inserir ações intergeracionais e incluir pessoas com deficiência nas atividades do SCFV.
Como o SCFV é ofertado?
O SCFV é um serviço coletivo e continuado, ofertado principalmente nos Centros de Referência de Assistência Socia (CRAS) ou em Centros de Convivência referenciados ao CRAS.
A participação ocorre a partir de:
- Busca ativa no território;
- Encaminhamentos realizados pelo PAIF;
- Demanda espontânea, quando identificada a necessidade de inclusão no serviço.
A organização da oferta deve considerar o planejamento do serviço, a capacidade de atendimento e as especificidades locais.
O que é desenvolvido nos grupos do SCFV?
As atividades do SCFV são planejadas a partir da realidade do território e dos interesses dos participantes. Entre as ações mais comuns estão:
- Oficinas culturais, artísticas e esportivas
- Atividades lúdicas e recreativas
- Rodas de conversa e espaços de diálogo
- Ações educativas sobre direitos, convivência e participação social
Mais do que o tipo de atividade, o que caracteriza o SCFV é a intencionalidade do trabalho social, voltada ao fortalecimento de vínculos e à convivência comunitária.
Quais os objetivos do SCFV por faixa etária?
Além dos objetivos gerais, o SCFV tem objetivos específicos para cada ciclo de vida,
tendo em vista as especificidades de cada etapa do desenvolvimento dos sujeitos.
1- SCFV para crianças de 0 a 6 anos
Para essa faixa etária, o SCFV busca o desenvolvimento de atividades com as crianças, seus familiares e a comunidade. É uma forma de fortalecer vínculos de afetividade e cuidado, além de prevenir a ocorrência de situações de exclusão social e de risco, em especial a violência doméstica e o trabalho infantil.
O SCFV para esta faixa etária possui como característica, a organização e execução das atividades mediante os seguintes eixos norteadores:

De acordo com os eixos norteadores, o SCFV busca fortalecer vínculos afetivos, estimular o desenvolvimento infantil e apoiar as famílias no cuidado e na proteção das crianças, por meio de experiências lúdicas e de convivência.
2- SCFV para Crianças e Adolescentes de 6 a 15 anos
Para crianças e adolescentes de 6 a 15 anos, o SCFV além de promover a convivência, visa também preparar os indivíduos para o exercício de sua cidadania por meio da participação social, assegurando dessa forma o desenvolvimento do seu protagonismo e da sua autonomia.
3- SCFV para Adolescentes de 15 a 17 anos
Para adolescentes de 15 a 17 anos, o SCFV busca fortalecer a convivência familiar e comunitária, contribuindo para o retorno ou a permanência dos adolescentes na escola, por meio do desenvolvimento de atividades que estimulem a convivência social, a participação cidadã e uma formação geral para o mundo do trabalho.
4- SCFV para Jovens de 18 à 29 anos
Para jovens de 18 a 29 anos, o SCFV promove o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Isso se dá por meio do asseguramento de espaços de referência para o convívio grupal, comunitário e social e o desenvolvimento de relações de afetividade, solidariedade e respeito mútuo, de modo a desenvolver a sua convivência familiar e comunitária.
O SCFV contribui para a ampliação do acesso à informação, artístico e cultural. Estimula o desenvolvimento de potencialidades, construindo novos projetos de vida e contribuindo para a formação desses jovens enquanto cidadãos de direitos. Além do compartilhamento de vivências com vistas ao alcance da autonomia, participação social e desenvolvimento de habilidades e talentos.
5- SCFV para adultos de 30 a 59 anos
Para adultos de 30 a 59 anos, o SCFV objetiva fortalecer vínculos familiares e comunitários, desenvolvendo ações complementares, assegurando espaços de referência para o convívio grupal, comunitário e social e o desenvolvimento de relações de afetividade, solidariedade e encontros intergeracionais de modo a desenvolver a sua convivência familiar e comunitária.
O foco está no fortalecimento das relações sociais e comunitárias, promovendo espaços de troca, apoio e participação coletiva.
6- SCFV para Idosos
Tendo em vista o processo de envelhecimento, o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos objetiva o desenvolvimento de atividades que contribuam para o fortalecimento de vínculos familiares, convívio comunitário, a prevenção de situações de risco social e o desenvolvimento da autonomia e de sociabilidade dos idosos.
Os idosos atendidos são aqueles com idade igual ou superior a 60 anos, e que se encontram em situação de vulnerabilidade social, em especial:
- Idosos beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC);
- Idosos de famílias beneficiárias de Programas de Transferência de Renda;
- Idosos com vivências de isolamento por ausência de acesso a serviços e oportunidades de convívio familiar e comunitário e cujas necessidades, interesses e disponibilidade indiquem a inclusão no serviço.
É importante salientar que quando destinado a este determinado público, o SCFV não só tem objetivos específicos como também estratégias de intervenção recomendadas.
Execução direta ou indireta do SCFV?
O SCFV pode ser ofertado tanto nos CRAS e Centros de Convivência, que são instituições públicas, como em entidades socioassistenciais parceiras. É importante notar que essas instituições devem estar inscritas no Conselho de Assistência Social dos municípios ou Distrito Federal (DF) e seguir os devidos trâmites legais para que a parceria seja reconhecida.
Quando ofertado em uma instituição pública considera-se que o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos é executado diretamente. Já quando é operado por uma entidade de assistência social, ou seja, que não é uma instituição pública, é dito que o SCFV é executado indiretamente.
A TNSS, ainda, prevê que o espaço de execução do SCFV de ambos contemple uma série de requisitos quanto às instalações. Nomeadamente, sala(s) de atendimento individualizado, sala(s) de atividades coletivas e comunitárias e instalações sanitárias, com adequada iluminação, ventilação, conservação, privacidade, salubridade, limpeza e acessibilidade em todos seus ambientes de acordo com as normas da ABNT.
Para os casos em que o serviço é executado indiretamente, é importante estabelecer fluxos para o compartilhamento regular de informações entre as entidades e o CRAS. Essas informações poderão contribuir na redução de situações de vulnerabilidade, aumento de acessos a serviços e direitos socioassistenciais, dentre outras formas de melhoria de qualidade de vida.
Saiba mais sobre a Execução Indireta do SCFV
Como organizar o SCFV: grupos e encontros
O SCFV se materializa por meio de grupos, e os encontros constituem alternativas para o enfrentamento de situações de vulnerabilidades, promovendo em seus espaços:
- Aprendizado e ensino de forma igualitária;
- Diálogo para a resolução de conflitos e divergências;
- Escuta;
- Experiências de escolha e decisão coletivas;
- Exercício de escolhas;
- Processos de valorização/reconhecimento;
- Produção coletiva;
- Reconhecimento e nomeação das emoções nas situações vividas;
- Reconhecimento e admiração da diferença;
- Tomada de decisão sobre a própria vida e de seu grupo.
Para se aprofundar: Encontros do SCFV? Sabia como estruturar!
Qual é a Equipe Técnica do SCFV?
A equipe de referência do SCFV é composta por:
- Técnico de Referência: profissional de nível superior do CRAS onde o serviço é referenciado.
- Orientador Social: função exercida por profissional com no mínimo, nível médio, com atuação constante e responsável pela criação de um ambiente de convivência participativo e democrático;
- Facilitadores de Oficinas: função exercida por profissional com formação mínima em nível médio, responsável pela realização de oficinas de convívio por meio de esporte, lazer, arte e cultura.
A composição da equipe deve garantir a qualidade do atendimento e a intencionalidade do trabalho social
Como o SCFV é registrado e financiado?
O SCFV integra o conjunto de serviços cofinanciados do SUAS. O registro das informações sobre a oferta e a execução do serviço é realizado no Sistema de Informações do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SISC), etapa fundamental para o monitoramento e o acesso ao cofinanciamento federal.
Desde o reordenamento do SCFV, iniciado em 2013, consolidou-se a utilização do SISC como ferramenta estratégica para organização da oferta, monitoramento da execução e planejamento do serviço, bem como para subsidiar a tomada de decisão na gestão da política de assistência social. O registro dos usuários no SISC é obrigatório, inclusive para aqueles não identificados nas situações prioritárias, e a manutenção do cofinanciamento federal está condicionada, entre outros requisitos, ao registro e à confirmação periódica da participação dos usuários no sistema.
Leia também: Descomplique o SISC com o GESUAS
Perguntas frequentes sobre o SCFV:
O SCFV é obrigatório em todos os municípios?
Não é obrigatório por si só, mas a oferta está prevista no SUAS e é fortemente recomendada como política pública de proteção social básica para prevenir vulnerabilidades.
Qual a relação entre o SCFV e o PAIF?
O SCFV tem por objetivo complementar o trabalho social desenvolvido com famílias pelo PAIF, prevenindo a ocorrência de situações de risco social e fortalecendo a convivência familiar e comunitária junto aos usuários.
Havendo necessidade, os usuários atendidos pelo SCFV também poderão ser acompanhados pelo PAIF, juntamente com outros integrantes do núcleo familiar.
Saiba mais sobre a diferença entre PAIF e SCFV: Proteção Social Básica: entendendo a diferença entre PAIF e SCFV!
Qual relação entre o SCFV e o AEPETI?
A participação de crianças e adolescentes retirados do trabalho infantil no SCFV é considerada uma estratégia fundamental para o enfrentamento do trabalho infantil, proporcionando a oferta de novas oportunidades de desenvolvimento às crianças e aos adolescentes atendidos pelo SCFV.
Como registrar o SCFV no RMA?
O Registro Mensal de Atendimentos funciona da seguinte forma em cada faixa etária:
- Crianças de 0 à 6 anos em SCFV:
Deve-se Informar o número total de crianças, com idade até 6 anos, que participaram das atividades desenvolvidas pelo SCFV no mês de referência que está sendo informado. Também deverá ser informado quais profissionais do CRAS que compõem a equipe técnica realizaram os atendimentos.
- Crianças e adolescentes de 7 a 14 anos em SCFV
Deve-se Informar o número total de crianças ou adolescentes, com idade entre 7 e 14 anos, que participaram das atividades desenvolvidas pelo SCFV no mês de referência que está sendo informado. Também deverão ser contabilizadas todas as criança que estão vinculadas às Ações Estratégicas do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) (AEPETI), e que participam com regularidade do SCFV.
- Adolescentes de 15 a 17 anos em SCFV
Deve-se Informar o número total de adolescentes, com idade entre 15 e 17 anos, que participaram das atividades desenvolvidas pelo SCFV no mês de referência que está sendo informado. Também deverão ser contabilizados todos os adolescentes que participam regularmente do serviço.
- Adultos de 18 a 59 anos em SCFV
Deve-se informar o número total de adultos com idades entre 18 e 59 anos, que participaram das atividades desenvolvidas pelo SCFV no mês de referência que está sendo informado.
- Idosos em SCFV
Deve-se informar o número total de idosos (pessoas com idade igual ou superior a 60 anos), que foram atendidos durante o mês de referência, e que participaram das atividades desenvolvidas nos Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos para Idosos, realizados neste CRAS.
Conclusão: Por que o SCFV é estratégico no SUAS?
O SCFV é uma das principais estratégias de prevenção social no âmbito da Proteção Social Básica. Ao promover convivência, fortalecer vínculos e ampliar a participação social, o serviço contribui diretamente para a redução de vulnerabilidades e para a garantia de direitos.
Quando bem planejado e articulado com os demais serviços do SUAS, o SCFV fortalece o trabalho social no território e amplia a capacidade de proteção das famílias e indivíduos.
*Conteúdo atualizado em 2026 para adequação conceitual e normativa, considerando as diretrizes do SUAS.
Leia também:
Referências Bibliográficas
Convivência e Fortalecimento de Vínculos. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.
ORIENTAÇÕES TÉCNICAS SOBRE O SERVIÇO DE CONVIVÊNCIA E FORTALECIMENTO DE VÍNCULOS PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES DE 6 à 15 anos. Prioridade Para Crianças e adolescentes integrantes do Programa de erradicação do trabalho infantil. Brasília, MDS, 2010.
Registro Mensal de Atendimentos RMA: CRAS. Manual de Instruções. Brasília, MDS, 2018.
Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos – SCFV para Crianças e Adolescentes de 06 a 15 anos, Secretaria do Desenvolvimento Social (SEDES).




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